grão

Grão

Grão 1.0 jun 2012 6’45”
Imaginação de Álvaro Andrade Garcia

Cosmogonia poética com textos em português, inglês, sânscrito e chinês. Semas ancestrais são animados e mixados com imagens e sons numa tentativa de criar o mundo através das palavras.

Grão é uma cosmogonia poética com semas em português, inglês, sânscrito e ideogramas em chinês tradicional, animados e mixados com imagens e áudio. É uma tentativa de recriar o mundo através da palavra poética, primeiro livro da trilogia A O M, baseada na sílaba que define o universo segundo a tradição hindu. O livrE (livro eletrônico) de poesia já consumiu mais de 20 anos de pesquisa e trabalho do autor em dicionários e textos de linguística, etimologia e mitologia. Grão se dedica à letra fenícia Alef, semelhante à letra grega Alfa e a letra A do alfabeto latino e seu equivalente cirílico, e que simboliza o começo de algo. Na literatura, o escritor argentino Jorge Luís Borges denomina de Aleph o ponto que contém todo o universo.

Grão, criado e distribuído em meio digital, experimenta a evolução do verbivocovisual de Joyce, passando pelos Campos até os dias de hoje, na era da computação em nuvens e dos dispositivos móveis, onde o termo ganha interatividade, hipertextualidade e dispersão em redes, sendo um exemplo de uma obra de ideografia dinâmica, como define Pierre Levy, ou de imaginação digital, como assim prefere seu autor, o poeta Álvaro Andrade Garcia, pioneiro da poiesis digital no Brasil.

Mais sobre Grão

LivrE (livro eletrônico) com as seções:
capa | epígrafe| 9 fluxos| poema sumário

Descrição por ordem de aparição

1. Capa

Animação de pinturas rupestres da Cueva de las Manos, localizada na província de Santa Cruz, na Argentina. Nos fluxos, o toque no ideograma da direita vai para o próximo fluxo; o toque no da esquerda volta um fluxo, e no ideograma de Grão, à direita e acima, segue para o poema-sumário. A opção por não fazer nada deixa os fluxos se encadearem sozinhos, seguindo a seguinte ordem:

2. Primordial (epígrafe)

Imagem com parte de uma Kali Yantra; depois, animação de imagem de Shiva do templo de Perur, Índia, e tradução livre de partes do Durgasatanama Stotra, do Visvasara Tantra.

Detalhe de uma Kali Yantra. Pintura do Rajistão, Índia, final século 18.

O círculo exterior é avidya – ignorância; depois vem oito pétalas: terra, água, fogo, ar, éter, manas (mente), buddhi (intelecto, iluminação) e ahankara (egoísmo, individuação). Cinco triângulos são as cinco jnanendriyas, jnana é conhecimento, indriyas são sensos; outras cinco são as cinco karmendryas, orgãos motores, depois cinco pranas e o bindu, a pura consciência refletida em maya.

Shiva com guirlandas de flores do Templo de Perur em Coimbatore, séc. 17. A divindade esculpida na pedra escura recebe flores que dão forma à contraforma, constantemente renovada pelos fiéis.

3. Palavra

Da língua de fogo de uma criança (Maria Neves) surge a palavra, desenhada em português, sânscrito (vac) e chinês (desenho estilizado de uma boca com a língua para fora). Associações entre as palavras e esta língua de fogo são recorrentes em diversas partes do mundo. Palavra se decompõe ao final do fluxo em simples e poderosas palavras com 3 letras, reconhecidas em toda parte.

4. Água

Imagem do salto do rio Preto, Parque da Chapada dos Veadeiros, Goiás. Palavras do campo semântico que une figuras maternas, águas, divindades femininas, regentes e substância mental.

5. Sol

Imagem de jyoti, luz, manifestação radiante da energia. O sol em imagem análoga a um ovo e gametas. Palavras masculinas de propulsão fecundam o ovo, ele em si um sol como potência, surge o feto, a gema, os elementos yin yang se mesclam.

Jyoti, luz. Têmpera, pintura em ouro. Século 18, Índia.

6. Raio Trovão

Igne, palavra latina para fogo, como Agni, deus do fogo para os hindus. Tor, Thor, o trovão, o raio, o fogo ancestral entre o céu e a terra. Imagens de tempestade, luz e sombra, eletricidade.

Surgem as vogais, associadas a certos pontos do corpo correspondentes aos chacras, segundo mitologia indígena brasileira. Cada ser humano é um tom de som e cor, mixagem da energia que circula.

Cada vogal aqui ganha uma cor segundo tradições hindus.

Imagem de tempestade com raios e trovões, Nova Lima, Minas Gerais.

Imagem mixada de yogin com seis chacras, pintura da escola kangra, final século 18, Índia.

7. Ar Vazio

Imagens de nuvens vistas da serra do Peruaçu, vale do São Francisco, noroeste de Minas Gerais. Silêncio, ardor. A pronúncia que dissemina como a chuva, espraia em silêncio por toda parte.

8. Id Ancestral

O sopro que percorre o vazio gera indivíduos emissores, ânimas etéreas do universo. Na solidão, no monastério, em ritmo de prana, indo e vindo, condensam as palavras mais intensas, que tornam a se espraiar.

9. Luz

Imagem: animação do Sloan Project, um zoom out da terra ao big bang, o mapa mundi do universo no horizonte de eventos. Forças irradiantes, luz, cosmos, mesclagem, fusões, tormentas tempo astronômico.

10. Fala

Resultado e força criadora, nasce em mim a palavra que rediz o universo através das eras e éons. Um éon é uma interessante medida de tempo muito larga. Em geologia, segundo o Dicionário Houaiss, “a maior unidade do tempo geológico, imediatamente antes de era na hierarquia geocronológica”.

Imagem de duas cobras eretas se enroscando em espiral. Serpentes são símbolo recorrente nas mais diversas partes do mundo, associadas a inúmeras coisas, como sabedoria, mundo dos mortos, eternindade, regeneração, medicina, diabo…

Áudio com som da letra A pronunciado por diversas pessoas, com diversas tonalidades e nuances.

11. Poema sumário

Poema escrito em chinês tradicional (hoje as palavras são conjuntos de 2 ideogramas; antes, nos textos clássicos, se escrevia com apenas um ideograma por palavra, de cima para baixo, da direita para a esquerda.

Aqui, cada ideograma corresponde a um fluxo de imagens e semas. Uma brincadeira gráfica de adivinhação para nós, pois cada ideograma é o título de um fluxo que lhe é correspondente; um poema, para o caso de um chinês lendo, pois aqui nossas palavras serão o grafismo. Podemos ler em diversas direções e fazer composições com eles.

Uma tradução aproximada do que está escrito da direita para a esquerda, de cima para baixo – como se lê em chinês tradicional -, seria:

Grão

Primordial
Palavra
Água

Fogo
Raio Trovão
Ar Vazio

Ancestral
Luz
Nasce

Eu

Grão interativo para baixar

Grão audiovisual com interatividade completa em versão local Windows (usando o software Managana). Ele pode ser copiado e executado em hd e pen drive e usado em videoinstalações interativas. Basta clicar no link abaixo, abrir o Dropbox e escolher baixar. Um arquivo .zip com a pasta inteira da instalação vai ser baixado. Descompacte e veja o arquivo leiame.txt. Aí, na hora de instalar ou rodar o Windows vai dizer que o editor é desconhecido, você tem que pedir mais informações e mandar ‘rodar assim mesmo’. (nosso software não é cadastrado na Microsoft).

DOWNLOAD AQUI
GRÃO PARA WINDOWS. GRÁTIS.

Fontes bibliográficas

  • Dicionário Eletrônico Houaiss.
  • Dicionário Analógico da Língua Portuguesa. Carlos Spitzer, S. J. Ed. Globo, Porto Alegre, 1959.
  • Palavra, Parábola. Rômulo Cândido de Souza. Ed. Santuário, Aparecida, São Paulo, 1990.
  • O Vocabulário das Instituições Indo-Europeias. Émile Benveniste. Ed. Unicamp, Campinas, 1995.
  • Hino para Durga. http://www.philhine.org.uk/writings/rit_invdurga.html
  • Tantra Art. Ajit Mookerjee, Ravi Kumar. Random House, Londres/Nova Delhi, 1971.
  • Dicionário de caracteres chineses. http://www.yellowbridge.com/chinese/character-etymology.php
  • Textos de Estética Taoista. Luis Racionero. Alianza Editorial, Madri, 1983.
  • Dao De Jing. Laozi. Tradução Mario Bruno Sproviero. Ed. Hedra, São Paulo, 2002.
  • L’idiot Chinois, Initiation à la lecture des caractères chinois. Kyril Ryjik, Payot, Paris, 1983.
  • A Ideografia Dinâmica – rumo a uma imaginação artificial?. Pierre Lévi. Ed. Loyola, São Paulo, 1998.
  • A terra dos mil povos – A história indígena do Brasil contada por um índio. Kaká Werá Jecupé. Ed. Peirópolis, São Paulo, 1998.
  • Ideograma: lógica, poesia, linguagem. Haroldo de Campos, Heloysa Dantas. Edusp, São Paulo, 1994.
  • O Aleph. Jorge Luís Borges. Tradução de Davi Arrigucci Jr.. Companhia das Letras, São Paulo, 2008.

Referências

Grão foi apresentado na ELO’17, Conferência da Electronic Literature Organization, Porto, Portugal, 2017.

Artigo Poetic Publications Authored with Free Software Managana, de Álvaro Andrade Garcia e Lucas Santos Junqueira publicado na revista MATLIT Materialities of Literature, do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Você pode baixar o PDF daqui mesmo. Texto de 8 páginas com a síntese de experimentos com o software de publicação Manangana e a construção de dois livrEs publicados nele: Grão e Poemas de Brinquedo.

Para ver o texto e o sumário da seção Communities da revista, clique abaixo (em inglês). Volume 6 No 2 (2018) of MATLIT: Materialities of Literature publishes selected articles from the ELO 2017 Conference. 

Grão e Managana no E-Poetry 2015 – centro cultural Borges, Buenos Aires

apresentação de Grão e Managana no E-Poetry 2015

Grão foi apresentado no E-Poetry 2015, evento promovido pelo Electronic Poetry Center, da universidade de Buffalo, NY, EUA em parceria com a Universidad Nacional de Tres de Febrero, da Argentina. O evento aconteceu entre 9 e 12 de junho de 2015 no centro cultural Borges e fez um apanhado da produção de literatura digital na América Latina e no mundo.

Mais informações no site do evento: http://epc.buffalo.edu/e-poetry/archive/

Texto da apresentação de Grão no E-Poetry 2015, no centro cultural Borges, Buenos Aires

Grão é meu primeiro e último trabalho de poesia digital, e me consumiu 30 anos. Comecei a pensar no poema quando larguei a medicina para me dedicar à poesia e me dei de presente um curso, que incluía música, línguas, linguística e a leitura assídua de outros autores. Logo tive contato com o chinês e a ideografia, que fascinava gente como Serguei Eisenstein no cinema, Ezra Pound e Ernest Fenollosa na poesia. O livro The Chinese Writen Character as a Medium for Poetry me influenciou assim como a Haroldo de Campos que difundiu essas idéias no Brasil. Uma língua que grafava visualidades em contraste com a nossa que grafa sons, a etimologia visual e a etimologia sonora, o sânscrito e as línguas indoeuropéias, as diferentes gramáticas de diferentes línguas.

Na época me fascinou um poema usado com exemplo da gramática chinesa, onde um autor descreve uma cena campestre sem sabermos o ‘quem’ e o ‘quando’ da cena. E aí descubro que em chinês o tempo, a pessoa e o gênero da fala não são tão relevantes quanto para nós falantes indoeuropeus, que grudamos nos verbos essas informações. Resolvi então escrever uma cosmogonia com características desse tipo de gramática.

De início pensei em fazer fluxos de semas retirando deles os sufixos e prefixos substituindo-os por sons que poderia manipular para fazer rimas e combinações. Pensei em trocar os ‘os’ e ‘as’, por exemplo, por ‘es’ e ‘is’ do italiano, e recriar as finalizações dos verbos livremente para destruir a noção de temporalidade, pessoa e gênero. Esses sons em português nos remeteriam ao latim, e de alguma maneira uma sonoridade relacionada à religiosidade que me interessava.

E comecei a colecionar semas e a ler cosmogonias em várias religiões e lendas indígenas, enquanto paralelamente meu trabalho poético ia tomando seu rumo.

Na década de oitenta, sincronicamente com os  Campos, com Wilton Azevedo, Philadelpho Menezes e Julio Plaza, eu publicava com autores de Minas Gerais videopoemas usando pc xts em telas de 320×240 pixels e 4 cores simultâneas. Daí me tornei diretor de audivisual, roteirista e finalmente diretor de multimídia, produzindo um grande número de títulos publicados em cd roms, dvds, sites internet, exibidos em televisão, rádio, cartazes em ônibus, livros impressos etc. Meu trabalho poético digital passou a gravitar em torno de um site chamado Sìtio de Imaginação onde evoluimos a interatividade e animação usando action script, a linguagem de programação do Flash.

E foi aí que Grão amadureceu. Decidi que a cosmogonia seria escrita com semas substantivados, no singular, mantendo as terminações mais simples possíveis em português, sem conectores, com um fraseado e exibição na tela sincrônico com ideogramas, sons e imagens também ancestrais, animados e com interação programada em um software livre que criamos a partir da nossa experiência com o Sítio de Imaginação e outros audiovisuais interativos que dirigi.

Em Grão, muitas vezes usei palavras de outras línguas como o sânscrito e o inglês para mostrar essa força transversal dos sons primordiais e imaginei que esse fluxo poderia ser entendido por falantes de diversas línguas, ajudados também pelo conjunto de imagens e sons que se compõe com os textos. Ao mesmo tempo me agrada brincar com as sutis diferenças, como no título, ‘grão’ em português é ‘grain’, ‘grano’, mas também ‘muito grande’ por exemplo. Os ideogramas servem como grafismo para nós, funcionam como títulos para os fluxos, e escrevem um poema em chinês tradicional.

Já no tempo de finalização do poema, estava bem empolgado com ideias do neurocientista e filósofo português Antonio Damásio que resolve um problema que vinha desde a década de 1990 para mim e outros autores digitais. Como fazer a multimídia se tornar uma linguagem nova e que de fato integrasse os diversos media e linguagens que são usados na criação e recepção de duas obras? Philadelpho Menezes usou a palavra intermídia, eu cunhei a palavra intersenso, e finalmente peguei de Damásio a palavra Imaginação, e de Pierre Levy a expressão Ideografia Dinâmica. Tudo se encaixava e integrava. Para Damásio uma imagem no sentido mental, cerebral, é um cluster, amálgama, de diversos inputs sensoriais, mixados e sequenciados com inputs das memórias, de modo que lidamos dentro da nossa cabeça de forma integrada e descategorizada com imagens sejam visuais, sonoras, olfativas, táteis, proprioceptivas etc, quando pensamos, sonhamos… imaginamos.

E bingo, fugir da metáfora da página nas interfaces digitais era o sonho de praticamente todos os pioneiros e pensadores da informática, e meu também. Podemos ficar, por exemplo, com Theodor Nelson, que na década de sessenta cunha a expressão hipertexto, e que vai evoluir para hipermídia. Ele descreve também o que seria a transliteratura. Está destruído o espaço bidimensonal da folha impressa e aberto o espaço hiperdimensional dos links e nós. Se estamos no digital vamos abandonar a página do impresso e tentar trabalhar com fluxos de imagens como fazemos na mente e os softwares tem que se adaptar a isso. Eu hoje só uso páginas como véus, como respiros para a informação, o arroz nos pratos culinários. Mas fruição é a palavra, animação é a base da interface.

Managana, criado como software livre, serve então como ferramenta para a autoração, edição coletiva e também exibição e interação desses fluxos de imagens mentais, toda a sua estruturação parte desse pressuposto. E a poesia stritu sensu (textual sonora e visual) sente-se à vontade nesse ambiente, já que historicamente tem longa trajetória de contato com a música, artes visuais, matemática, enfim, outras linguagens e sistemas. Entretanto, o software vai bem além da poesia, cabe ressaltar que hoje usamos em audiovisuais interativos, instalações em museus e centros culturais, para publicação de revistas eletrônicas e integração com blogs e redes sociais.

Então aí está o Managana, estou no player para Windows, aqui no celular temos o player para ios e para android, temos um executável, um show time com interações sofisticadas para instalações com video mapping, integração com kinect, arduino, etc. Aqui, além da navegação pela obra podemos comentar, compartilhar, votar… e editar.

Lhes mostro a interface de edição do Managana, que tem um editor local e também web que agrega muita coisa do WordPress no sentido de ambiente de edição conjunta, com potentes ferramentas para a ‘programação’ dos fluxos imagéticos e suas interações, inclusive algoritimicas e entre dispositivos, transformando-os em controles remotos uns dos outros.

A estrutura do menu fala um pouco de sua organização, temos comunidades, fluxos, playlists, a ideia é a criação de paisagens mentais com essas playlists mixadas e sequenciadas numa espécie de meta time line e preparadas para delivery em múltiplas plataformas. E os dados são todos gravados em formatos abertos e padrão numa pasta que pode ser livremente manuseada.

Entrevista à Rede Minas de Televisão

Entrevista por ocasião do lançamento em 2012 percorre o livrE Grão e seu software Managana em suas múltiplas aparições e facetas.
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